Entrevista

Médico Carlos Augusto Madalosso
Membro titular da socidade brasileira de cirurgia bariátrica, Cirurgião da Equipe GASTROBESE – Passo Fundo-RS

1- Quem é você? ( Nome completo, data de nascimento, nome da esposa e dos filhos, profissão, especializações, trabalhos científicos que é autor ou co-autor, capítulos de livros que escreveu, cursos e congressos que participou, instituições a que pertence e outros títulos.)

     Carlos Augusto Scussel Madalosso, filho de Carlos Antonio e Celina Scussel Madalosso, sou casado com Alexandra Guareschi Madalosso e pai de dois filhos-Bruno e Bianca. Sou formado em medicina pela Univeridade de Passo Fundo desde (1989), fiz minha residência em Cirurgia Geral pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Hospital Maciel em Montevidéo – Uruguai (1990-1992), formação em cirurgia digestiva no Hospital Nove de Julho em São Paulo (1992), fellowship em transplante de Fígado na Clínica Mayo – EUA (1995-1996), estágios em cirurgia bariátrica com Dr Mathias Fobi e Raphael Capella – EUA (2001), treinamento em cirurgia bariátrica vídeo-laparoscópica no Instituto Garrido- SP (2005). Sou membro tittular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, ainda, membro da associação Brasielira de Estudos de Obesidade Federação Internacional para estudos da obesidade
 A clínica Gastrobese foi iniciada em 1999, nas dependências do Instituto de Gastroenterologia e Colo-proctologia – serviço tradicional no tratamento clínico e cirúrgico das doenças do aparelho digestivo, com a intenção de oferecer tratamento multi-profissional e multi-disciplinar no tratamento da obesidade severa. Esta equipe constitui serviço de excelência no tratamento cirúrgico da obesidade e, mais recentemente, diabetes mellitus tipo II associado ao excesso de peso. A GASTROBESE já apresentou vários  trabalhos em eventos científicos além de publicações em revistas internacionais, sendo que seu principal estudo aborda a doença do refluxo gastro-esofágico e cirurgia bariátrica  alcançando o  prêmio de melhor trabalho nacional no Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica em 2008. Sua equipe conta com serviço de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicologia, instrumentação cirúrgica, odontologia além das especialidades  médicas como anestesiologia, cirurgia digestiva, gastroenterologia, medicina interna, pneumologia, nutrologia, cirurgia digestiva e cirurgia bariátrica e metabólica.


2- Segundo as estatísticas nacionais, o Brasil passou do status de um país de subnutridos para o status de um país de obesos. Na sua opinião, quais são os fatores que contribuem para este paradigma?
     Alguns fatores podem explicar este paradigma. Inicialmente devemos reconhecer que o poder aquisitivo da população brasileira melhorou, garantindo maior oferta de alimentos. No entanto, a opção de alimentos mais saudáveis como peixes, legumes contendo pouca gordura não faz parte da mesa do povo brasileiro principalmente por questões culturais. Aliado ao aspecto nutricional, temos a redução da oportunidade de gasto energético. Isso pode ser exemplificado pelo acesso a automóveis e outros meios de transporte; tarefas antes simples como lavar, passar, foram eficientemente substituídas pelos eletrodomésticos. Ainda, a insegurança urbana tem retirado as crianças das ruas e as levado ao jogos eletrônicos disponíveis no domicílio ou em Shopping Centers, que, por sua vez, têm uma boa praça de alimentação. Enfim, o povo brasileiro é refém de uma sociedade que soube aumentar as ofertas de calorias, porém foi inábil em manter as oportunidades de gasto energético.


3- Qual é o maior vilão? A genética ou os fatores ambientais? Por quê?

     A genética determina como somos. Ao longo de 20 milhões de anos
fomos construídos para obtermos e conservarmos energia. Contudo, a evolução da humanidade é que ofereceu-nos alimentos calóricos e privou-nos do gasto energético. Isto explica porque é que hoje, com os mesmos genes de nossos pais, tenhamos mais de 50% da população brasileira com excesso de peso ao passo que trinta anos atrás esta proporção era de um para cinco indivíduos.

 
4- Como funciona o mecanismo da fome e da saciedade?

     Fome pode ser definido como um impulso que nos conduz à busca de alimento. Saciedade, por sua vez, é a sensação que nos leva à interrupção da alimentação. Estes sintomas não são antagônicos. A ausência de fome não implica necessariamente na presença de saciedade. Assim, é possível que o indivíduo continue a alimentar-se mesmo sem fome. Não se sabe exatamente como estes mecanismos funcionam. Já foram identificados vários hormônios que são capazes de agir no hipotálamo inibindo a fome ou determinando saciedade. A pesquisa de fármacos que possam atuar desta forma tem sido o grande desafio da indústria de medicamentos. Contudo, até o momento, não se obteve nenhum com resposta similar em termos de efeito ou durabilidade daquela obtida com cirurgias bariátricas. Sabemos que a cirurgia atua através de um eixo entero-neuro-hormonal porém ainda desconhecemos como isto ocorre.

5- Existem vários tipos de obesidade. Explique-nos como diferenciá-los.

     A distribuição de tecido adiposo é variável. Em um extremo temos os indivíduos cuja gordura se localiza nos quadris, e noutro, com predomínio no abdome. Preocupa-nos aqueles com gordura abdominal (ou maçã) pois estão mais associados à  síndrome metabólica. Esta é definida por diabetes tipo II, hipertensão arterial sistêmica, aumento dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicerídeos; sem dúvida esta é a principal causa de morte prematura nesses doentes.


6- Quais as doenças relacionadas à obesidade mais frequentemente encontradas nesta população?

     Doenças cardiovasculares, como hipertensão arterial sistêmica, aterosclerose, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral; doenças ósteo-articulares como artroses, fraturas, lesões ligamentares, hérnias de disco... ; digestivas como refluxo gastroesofágico, esteatose hepática, hérnias abdominais; oncológicas em que evidencia-se maior ocorrência de tumores de mama, endométrio, ovários, próstata, renal e intestino; e ainda prejuízo emocional, social e laboral.

7- Quais são as maiores dificuldades relatas pelos seus pacientes?

     São várias, como dificuldades sociais, locomoção, obtenção ou manutenção do emprego, necessidade de utilização de inúmeros medicamentos, baixa auto-estima e outras.

8- A cirurgia bariátrica, conhecida popularmente como “ cirurgia de redução do estômago” começou a ser realizada em 1954. Nestes 25 anos, houveram muitos avanços, tanto em técnicas como em cuidados. O que é, hoje, a cirurgia bariátrica?

     Basicamente, os avanços foram em termos de cuidados pré, intra e pós operatórios que fizeram da cirurgia bariátrica, que é uma cirurgia de grande porte, um procedimento extremamente seguro. Para se ter uma idéia, no início relatavam-se mortalidade de 2% e hoje, em nossa clínica temos um evento fatal em quase 900 procedimentos. Ou seja o risco de vida foi reduzido em vinte vezes. Houve um avanço espetacular no período de internação que atualmente é de pouco mais de 24h. Com isso torna-se possível uma redução significativa do risco de infecção hospitalar e embolias pulmonares. Outro grande avanço foi a vídeo-cirurgia. Esta alternativa, pelo fato de não realizar cortes no abdome, diminui dor pós-operatória e a ocorrência de hérnias da parede abdominal, permitindo assim que o indivíduo possa em poucos dias retornar às suas atividades com mínimas limitações.

9- A Cirurgia bariátrica e a cirurgia metabólica são a mesma coisa? Porque a denominação metabólica?

     A denominação metabólica implica em técnicas cirúrgicas que priorizam o tratamento da síndrome metabólica. Como esta síndrome geralmente está associada à obesidade, é evidente que também deve promover redução de peso.

10-  Quantos pacientes você já operou?

     Até o momento foram cerca de mil procedimentos bariátricos.

11- Quais os extremos etários para realização deste tipo de cirurgia?

     Temos pacientes desde 14 até 72 anos.

12- Qual o paciente, na sua opinião, tem indicação absoluta?

     Aquele que já tentou perder peso por tempo superior a dois anos e que apresente uma obesidade grau III ou Grau II ( ver quadros em anexo) com doenças graves ou limitantes que respondam à perda de peso.

13- Que tipos de limitações psicológicas lhe fazem repensar a indicação cirúrgica?

     Talvez o fator psicológico mais importante que deve ser trabalhado é eliminar falsas expectativas com a cirurgia. Alguns pacientes atribuem os fracassos da sua vida ao excesso de peso e alimentam a idéia de que a cirurgia irá eliminar todos os problemas. Na verdade deve ser compreendido que a cirurgia irá promover a perda de peso e recuperação do estado de saúde física. Isso poderá ajudar na melhora das demais limitações psicológicas. Porém essa melhora deve ser uma  conquista do paciente e não da cirurgia. Ainda, pacientes que se encontrem em surtos neuróticos ou psicóticos devem ser tratados antes de pensar em cirurgia.

14- Quais são as técnicas utilizadas e suas indicações?

     A técnica mais empregada é o bypass gástrico também conhecida como cirurgia de Capella – que é o nome do criador da técnica, Dr. Raphael Capella.
 
15- Quanto tempo de hospitalização é necessário?

     Atualmente, em nossa clínica,  a maior parte dos pacientes tem um tempo de internação de  24h.

16- Sabemos que, como todo o procedimento cirúrgico, especialmente tratando-se de obesos, a cirurgia bariátrica tem riscos. Quais seriam estes riscos?

     Riscos de complicações existem em todos os procedimentos. Cerca de 2,5% dos pacientes necessitam de uma re-intervenção cirúrgica antes de 30 dias ( geralmente laparoscopia). Outra preocupação é a pulmonar (embolias e pneumonias). Cuidados apropriados, fisioterapia e alta hospitalar precoce parece-nos fundamentais para diminuir sua ocorrência.

17- E a taxa de mortalidade?

     Atualmente é inferior a 0,3%.

18- Quais as medidas utilizadas em prol da diminuição destes riscos em termos anestésicos, técnicos e pós-operatórios?

     O percentual de eventos fatais na cirurgia é em nossa série de pacientes é de 0,1%. Acreditamos ser importante avaliação pré-operatória criteriosa além de acompanhamento de equipe multi-profissional com nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiologia com atenção ao treinamento e adaptação à mastigação, enfermagem com treinamento em intensivismo além de equipe médica multidisciplinar com pneumo-intensivismo, anestesistas treinados para atendimento a obesos, e evidentemente, cirurgiões treinados. É importante saber que o resultado do tratamento depende de todos: da equipe médica, equipe multiprofissional e, principalmente, do paciente.


19- A cirurgia é reversível? Em que casos você reverteria?
     A cirurgia do bypass gástrico é passível de reversão, porém não devemos revertê-la até dispormos de um tratamento melhor.


20- Esta cirurgia está disponível pelo SUS e os convênios de saúde cobrem seus custos?

     Existem serviços disponíveis pelo SUS, e a maior parte dos convênios viabilizam este tratamento

21-Após a cirurgia, como é a dieta do paciente?

     Nossa rotina pós-operatória é de uma semana de líquidos, uma de cremosos e uma de pastosos. Após 21 dias inicia dieta completa.

22- Qual é o resultado em termos de melhora de doenças e mortalidade após a cirugia?

     Como nenhum outro tratamento a cirurgia melhora doenças graves relacionadas. Isso é verificado em torno de 90% no que diz respeito ao diabetes, hipertensão, aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos, apnéia do sono. Ainda, em recente estudo publicado no New England, revista clínica muito conceituada mundialmente, ficou demonstrado que esta cirurgia reduz mortalidade relacionado ao diabetes em 92%, câncer em 60%, doenças cardíacas em 56% e reduz a  mortalidade geral em 40%.

23- A cirurgia plástica é necessária em todos os pacientes após alguns meses de cirurgia?

     Não, menos de 25% dos pacientes fazem alguma cirurgia plástica.

24- A cirurgia pode falhar? Qual é o perfil do paciente em que a falha ocorre?

     Sim, em 3% dos casos. Geralmente em pacientes que abusam de álcool ou são muito inativos.

25- Por quanto tempo dura o acompanhamento com a equipe multidisciplinar após o ato cirúrgico?

     Com a equipe multidisciplinar, por cerca de 6 meses, devendo seguir com a equipe médica em avaliações anuais, ou quando necessária.

 

Grau de obesidade e risco de desenvolvimento de doenças


Grau

IMC (Kg/m2)

Risco de comorbidades

Baixo peso

< 18,5

baixo

Normal

18,5 a 24,9

média

Pré-obesidade

25 a 29,9

aumentado

Classe I

30 a 34,9

moderado

Classe II

35 a 39,9

severo

Classe III

≥ 40

muito severo

Fonte:Organização Mundial da Saúde 2006

Cálculo do IMC

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica
www.sbcbm.org.br )