Entrevista Carlos Augusto Scussel Madalosso, filho de Carlos Antonio e Celina Scussel Madalosso, sou casado com Alexandra Guareschi Madalosso e pai de dois filhos-Bruno e Bianca. Sou formado em medicina pela Univeridade de Passo Fundo desde (1989), fiz minha residência em Cirurgia Geral pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Hospital Maciel em Montevidéo – Uruguai (1990-1992), formação em cirurgia digestiva no Hospital Nove de Julho em São Paulo (1992), fellowship em transplante de Fígado na Clínica Mayo – EUA (1995-1996), estágios em cirurgia bariátrica com Dr Mathias Fobi e Raphael Capella – EUA (2001), treinamento em cirurgia bariátrica vídeo-laparoscópica no Instituto Garrido- SP (2005). Sou membro tittular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, ainda, membro da associação Brasielira de Estudos de Obesidade Federação Internacional para estudos da obesidade
A genética determina como somos. Ao longo de 20 milhões de anos Fome pode ser definido como um impulso que nos conduz à busca de alimento. Saciedade, por sua vez, é a sensação que nos leva à interrupção da alimentação. Estes sintomas não são antagônicos. A ausência de fome não implica necessariamente na presença de saciedade. Assim, é possível que o indivíduo continue a alimentar-se mesmo sem fome. Não se sabe exatamente como estes mecanismos funcionam. Já foram identificados vários hormônios que são capazes de agir no hipotálamo inibindo a fome ou determinando saciedade. A pesquisa de fármacos que possam atuar desta forma tem sido o grande desafio da indústria de medicamentos. Contudo, até o momento, não se obteve nenhum com resposta similar em termos de efeito ou durabilidade daquela obtida com cirurgias bariátricas. Sabemos que a cirurgia atua através de um eixo entero-neuro-hormonal porém ainda desconhecemos como isto ocorre. A distribuição de tecido adiposo é variável. Em um extremo temos os indivíduos cuja gordura se localiza nos quadris, e noutro, com predomínio no abdome. Preocupa-nos aqueles com gordura abdominal (ou maçã) pois estão mais associados à síndrome metabólica. Esta é definida por diabetes tipo II, hipertensão arterial sistêmica, aumento dos níveis sanguíneos de colesterol e triglicerídeos; sem dúvida esta é a principal causa de morte prematura nesses doentes.
Doenças cardiovasculares, como hipertensão arterial sistêmica, aterosclerose, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral; doenças ósteo-articulares como artroses, fraturas, lesões ligamentares, hérnias de disco... ; digestivas como refluxo gastroesofágico, esteatose hepática, hérnias abdominais; oncológicas em que evidencia-se maior ocorrência de tumores de mama, endométrio, ovários, próstata, renal e intestino; e ainda prejuízo emocional, social e laboral. São várias, como dificuldades sociais, locomoção, obtenção ou manutenção do emprego, necessidade de utilização de inúmeros medicamentos, baixa auto-estima e outras. Basicamente, os avanços foram em termos de cuidados pré, intra e pós operatórios que fizeram da cirurgia bariátrica, que é uma cirurgia de grande porte, um procedimento extremamente seguro. Para se ter uma idéia, no início relatavam-se mortalidade de 2% e hoje, em nossa clínica temos um evento fatal em quase 900 procedimentos. Ou seja o risco de vida foi reduzido em vinte vezes. Houve um avanço espetacular no período de internação que atualmente é de pouco mais de 24h. Com isso torna-se possível uma redução significativa do risco de infecção hospitalar e embolias pulmonares. Outro grande avanço foi a vídeo-cirurgia. Esta alternativa, pelo fato de não realizar cortes no abdome, diminui dor pós-operatória e a ocorrência de hérnias da parede abdominal, permitindo assim que o indivíduo possa em poucos dias retornar às suas atividades com mínimas limitações. A denominação metabólica implica em técnicas cirúrgicas que priorizam o tratamento da síndrome metabólica. Como esta síndrome geralmente está associada à obesidade, é evidente que também deve promover redução de peso. Até o momento foram cerca de mil procedimentos bariátricos. Temos pacientes desde 14 até 72 anos. Aquele que já tentou perder peso por tempo superior a dois anos e que apresente uma obesidade grau III ou Grau II ( ver quadros em anexo) com doenças graves ou limitantes que respondam à perda de peso. Talvez o fator psicológico mais importante que deve ser trabalhado é eliminar falsas expectativas com a cirurgia. Alguns pacientes atribuem os fracassos da sua vida ao excesso de peso e alimentam a idéia de que a cirurgia irá eliminar todos os problemas. Na verdade deve ser compreendido que a cirurgia irá promover a perda de peso e recuperação do estado de saúde física. Isso poderá ajudar na melhora das demais limitações psicológicas. Porém essa melhora deve ser uma conquista do paciente e não da cirurgia. Ainda, pacientes que se encontrem em surtos neuróticos ou psicóticos devem ser tratados antes de pensar em cirurgia. A técnica mais empregada é o bypass gástrico também conhecida como cirurgia de Capella – que é o nome do criador da técnica, Dr. Raphael Capella. Atualmente, em nossa clínica, a maior parte dos pacientes tem um tempo de internação de 24h. Riscos de complicações existem em todos os procedimentos. Cerca de 2,5% dos pacientes necessitam de uma re-intervenção cirúrgica antes de 30 dias ( geralmente laparoscopia). Outra preocupação é a pulmonar (embolias e pneumonias). Cuidados apropriados, fisioterapia e alta hospitalar precoce parece-nos fundamentais para diminuir sua ocorrência. Atualmente é inferior a 0,3%. O percentual de eventos fatais na cirurgia é em nossa série de pacientes é de 0,1%. Acreditamos ser importante avaliação pré-operatória criteriosa além de acompanhamento de equipe multi-profissional com nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiologia com atenção ao treinamento e adaptação à mastigação, enfermagem com treinamento em intensivismo além de equipe médica multidisciplinar com pneumo-intensivismo, anestesistas treinados para atendimento a obesos, e evidentemente, cirurgiões treinados. É importante saber que o resultado do tratamento depende de todos: da equipe médica, equipe multiprofissional e, principalmente, do paciente.
Existem serviços disponíveis pelo SUS, e a maior parte dos convênios viabilizam este tratamento Nossa rotina pós-operatória é de uma semana de líquidos, uma de cremosos e uma de pastosos. Após 21 dias inicia dieta completa. Como nenhum outro tratamento a cirurgia melhora doenças graves relacionadas. Isso é verificado em torno de 90% no que diz respeito ao diabetes, hipertensão, aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos, apnéia do sono. Ainda, em recente estudo publicado no New England, revista clínica muito conceituada mundialmente, ficou demonstrado que esta cirurgia reduz mortalidade relacionado ao diabetes em 92%, câncer em 60%, doenças cardíacas em 56% e reduz a mortalidade geral em 40%. Não, menos de 25% dos pacientes fazem alguma cirurgia plástica. Sim, em 3% dos casos. Geralmente em pacientes que abusam de álcool ou são muito inativos. Com a equipe multidisciplinar, por cerca de 6 meses, devendo seguir com a equipe médica em avaliações anuais, ou quando necessária.
Grau de obesidade e risco de desenvolvimento de doenças
Fonte:Organização Mundial da Saúde 2006 Cálculo do IMC |
